Sábado, 01 de Agosto de 2009

 

 

 

 

 De José Sobral de Almada Negreiros. figura multifacetada da cultura portuguesa pintor, escritor,  poeta, autorde Orpheu, modernista, futurista e ... tudo como ele próprio se autodefinia publico o seguinte texto que me lembro de ver publicado numa antiga selecta literária, há mais de 40 anos e que agora tive o prazer de reencontrar no livro "Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa" do poeta Eugénio de Andrade :

- Edição do Campo das Letras - 7.ª edição -Dezembro de 2002

 

 "Mãe!
   Vem ouvir a minha cabeça contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!
   Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
   Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

   Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

   Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

   Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
   Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!"

 



publicado por JoseGMestre às 16:08
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